Cap1. Uma grande viagem que passei dormindo

Como se fosse ir a praia não conseguia dormir. Estava tão ansioso por viajar que a cabeça não parava de imaginar, não deixando espaço para sonhos nem descanso. Logo cedo levantou mas apesar da noite mal dormida não tinha um pingo de sono. Arrumou suas coisas que já estavam no canto esperando o amanhecer, escovou os dentes, lavou a cara. Tomou um copo de água como café da manhã. Colocou a mochila nas costas se despediu e saiu para rua.

Saiu para rua e logo sentiu o vento gelado bater em sua cara. Era bom sentir o cheiro da manhã. O ar ainda estava úmido e os pássaros agitados. Foi direto ao ponto de embarque e pagou pelo ticket. O ônibus logo chegou era pontual e as pessoas embarcaram. Seguiu para o número de sua poltrona, colocou sua mochila ao lado e ligou seu pequeno rádio. O ônibus saiu da estação deixando tudo para trás. Mais uma vez cortou esse caminho e seguiu reto o destino.

Gostava de ir olhando os campos, as pessoas, os outros automóveis a passar. Imaginava como devia ser a vida das outras pessoas. E seu pensamento ia longe. Imaginava o que era produzido naquela fabrica. Qual era a espécie daquela árvore enorme, onde estaria indo a pessoa a sua frente, quantos quilômetros o motorista dirigiria naquele dia, e recordava um antigo livro e prestava atenção na canção, nos acordes e no ritmo, identificava cada instrumento. E apesar de uma viagem tão longa logo estava no destino.

Era um lugar desconhecido, com outra língua, outros costumes e outras manias. Era completamente diferente do que ele sempre esteve acostumado. Por isso tanta apreensão. Mas ele gostava de aventura e assim que chegou desceu com sua mochila. Logo de cara nada entendeu o que as pessoas falavam. Mas não importava ele conseguia se virar com o instinto por enquanto. Uma língua cantada parecia que as palavras não se descolavam uma das outras na fala. Era bonito de se ouvir, pensou que gostaria muito de entender o que falavam. Mas não havia tempo. Ele ainda estava indo para outro lugar mais distante. Só ali tinham o transporte. Era uma máquina quântica. Ele iria viajar para o mundo dos átomos. Ali sim seria um difícil entendimento das coisas. Diziam que nesse mundo as coisas se comunicavam se necessidade do som. Elas se locomoviam só de pensar e tudo era tão interligado que um fio de cabelo removido fazia vulcões entrar em erupção. As vezes parecia um pouco maluco e sem nenhuma ligação fios de cabelos e vulcões mas estavam intrinsicamente relacionados e eram diretamente dependentes nesse mundo.

Ele sabia que aqui teria não só de aprender uma nova língua mas abandonar todos conceitos que tinham pois pareciam muito longe do real e até atrapalhavam a entender o que realmente estava acontecendo. Por exemplo para aquecer seu café costumava colocar a chaleira no fogo e sabia que assim os átomos iriam se mover mais rapidamente e o atrito entra eles faria surgir uma energia que chamava de calor. Porém nesse mundo os átomos pareciam estar isolados de tão longe que se encontravam uns dos outros o que ele consegui ver era apenas um vazio que se parecia mais com um sopro.

Parece meio confuso porque também nunca estive lá mas vou contar tudo que ele me relatou estando lá. Ninguém tem muita coragem de ir para um lugar desses. Eu mesmo sou muito medroso e só de pensar em encontrar outro idioma e costumes já me assusto. Mas ele sabia se aventurar e quanto mais nas bordas do desconhecido mais queria se jogar adiante. Não que fosse um suicida mas era louco pela vida. Seus limites pareciam uma gaiola que o aprisionavam. Queria saber o porque do porque, o gosto atrás do gosto e o sentido dos cheiros. Queria não só saber a distância do chão a lua como também queria contar essa distância com seus próprios passos.

Enfim ele não queria modelos. Queria o real experimentado e depois contar para alguém que adora ouvir como eu pude escutar sobre tudo isso.

As vezes achava que era um pouco de mentiras ou sonhos inventados mas o que contava parecia coincidir com as coisas mas que toda teoria e era difícil então duvidar. Mas ele então dizia: eu só cheguei a ver isso então pode mesmo não ser tudo o que podemos saber e logo já pensava em ir mais adiante.

Foram alguns anos que ele passou viajando por esse estranho mundo de átomos e enquanto isso eu passei dormindo. Ele me disse que eu dormi muito pouco porque o tempo era relativo e todos esses anos dele para mim foram alguns segundos. Falava assim:

Onde fui é uma outra dimensão. É difícil explicar sabe qualquer dia te levo lá, mas vou tentar relatar algumas coisas. É mais ou menos assim tudo que parece muito certo é o que está mais próximo de estar completamente errado e tudo que parece errado tem uma possibilidade de estar certo. Na verdade tudo lá não tem medidas e nem palavras é tudo com relação a algo que se exprime as coisas e com isso tudo se torna muito falso então como não se comparam as coisas lá nunca há certeza de nada apenas uma possibilidade.

Quel legal. Eu dizia para não interromper muito e assim ele continuou.

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Notas da alma?

Você tem alma?

O que é a alma?

de onde ela vem?

pra onde ela vai?

Existe mesmo uma alma?

porque ninguém estuda a alma?

Alma morre?

Quais sinais que permintem fazer acreditar em uma?

Intuição? Somos somente funções metabólicas,

buscando sobreviver?

Uma viajante aprisionada que sabe que um dia

terá de deixar toda essa rápida viagem apenas na saudade?

O que busca cada alma? Qual nossa função para o planeta

Qual a função das flores? Existe função?

Para onde estamos caminhando pensando em milênios?

Porque pouco pensamos sobre isto tudo e dedicamos mais a somar e subtrair?

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Presenteando o futuro

Ocupamos nosso tempo.

Não sabemos de onde viemos

Nem pra onde vamos

e estamos a nos ocupar

Eu aqui a escrever

o homem da pré-história

a criança do futuro

vão assim pensar

Talvez isso aqui ler

escrever outras coisas

no mar nadar e se apaixonar

tempo a se ocupar

E se pudesse um presente deixar

para alguém que mal posso imaginar

lá na frente, no ano de 3000 ou mais

que poderia eu presentear?

Talvez um passeio por uma montanha

um deitar-se ao sol pela manhã

ou o cheiro do café de minhas manhãs

algo que não se acabe: um livro

Que bom poder conversar

com pessoas de outras épocas

e saber que assim também podem deixar

um presente curto poema pra o futuro inspirar.

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Diálogo com a Solidão

solidão porque me acompanha?

será você uma boa companhia?

gosto de você tem dias

mas as vezes estas muito calada

você diz que é assim mesmo

quando a chuva cai nos molha

quando no deserto há sede

e tudo que vai volta

quando com você gosto de ver a lua

caminhar por longos bosques frescos

cheirar os diversos aromas da natureza

e ouvir todos cantos do mundo

Amiga fiel seja companheira

como um violão que chora

e nos toca alma em todas horas

suba comigo aquela montanha

eu grito ao teu lado

e só ouço o eco

você é tão respeitosa

que escuta comigo

as vezes preciso te esquecer

a vida não pode ser só eu e você

temos que dar um pequeno espaço

para caber de tudo um pouco

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Esperando nada

na minha mesa canetas espalhadas

muitas ideias sob a luz da janela

sozinho vejo a noite chegar

pra onde foram nossos sonhos?

um mundo tentando mudar

olha pra frente sem notar

que a grande mudança

sempre esteve ali a esperar

um segurar pra não viver

mas apenas evitar de perder

segurança de que?

se isolado esta pra ter

Muros altos formam ilhas

eu aqui de fora ando milhas

tentando ao léu entender

aonde está o perceber

bits e bytes, mil novas start ups

nenhum sentido em apps

onde foi que me perdi

talvez naquela encruzilhada

menos de você aqui

mais de nada sem sal

sonso desejo de sol

sem sede se afoga em si

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Antes da chuva

Ventania soprou

pessoas a voar

se agarravam

em árvores secas

algumas rodopiaram

como poeira de duna

outras persistiram agarradas

só adejando as pernas

subi olhando pro chão

céu amarelo tudo seco

laranja doce azeda

chuva que chega

eu que chego

não saio do lugar

te dei duas laranjas

e uma foto do ventar

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cidade sem alma

vi uma cidade

construída e arquitetada

não por mal gosto estético

mas um artificial desejo

gananciosos prédios vazios

onde o sol ali brilhava opaco

rodovias para lugar algum

banhada por um mar de sal

cidade desalmada

com estruturas cadenciadas

aço brilhante, pontes de concreto

vidraças azuis, império desolado

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Dias de pandemia

tinha dois livros

steinbeck

e uma biografia

juntei mais um outro e flanei pro sebo

busquei nas prateleiras

algum outro pra trocar

o gato não dormia

hoje nas estantes

no meio da poeira

encontrei cortazar

bem maltratado

pelo tempo

na prateleira com mais novos

saramago, foi minha escolha

algo novo pra ler

os manjus já tinham sido entregues.

anotei sobre o hidrogênio

a energia da moda

busquei vagas e

corri em volta do lago.

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