Brecha

Eu que tanto procurei  por uma vaga sem parar

o que me sobrou foi mesmo o verbo, restar.

parecia sina ou coisa que acontece sem se saber porque

então como deve de ser com todas as sinas,  eu vaguei sem vaga

 

Sou flexivel e propaguei minha desaceleração

percorri a calmaria, perambulando por aí

Dei um grande incentivo a inércia com meu sossego

Alonguei conversas dedicando-me ao lazer

 

Eu já estava de folga mas sempre buscava vaga

então deixei-me descontrair, pra ver a calmaria

sentir de perto a brandura e a delonga,

porque não apreciar isso um dia inteiro na vida?

 

Foi que fiz. Flutuei, saboreando o espalhamento

Então me difundi no mundo, dediquei-me a descontração sem delonga

dei mesmo uma grande oportunidade a pausa, empenhei-me na lentidão

Abri chance para o momento, ocupei-me do ócio,  e vivi.

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Pilha fraca

Hoje meu relógio parou

então fiquei a vagar no presente

coloquei a pilha esgotada de lado

e sem o som ‘tic e tac’ me entreguei a escrita

 

com o sumiço da sua marcação ele  se alongou

estreitou-se largamente em seus silenciosos passos

e eu aprofundei-me em sua ausência como numa rede,

´tum tum´do coração  substituiu seu compasso

 

Pela falta dele quase toda ciência foi pelo ralo

todos os encontros marcados logo se atrasaram

Só as flores não sentiram tal descaso,

e na primavera tiraram ainda nossos suspiros e abraços

 

O cão também se deitou ao primeiro raio de sol

e as aves também  pouco se deram conta do lapso

comprei outra pilha no supermercado para por fim nesse caso

mas já tinha me acostumado, então deixei ela de lado

 

 

 

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Aguardando ônibus

Ele estava no banco. Sentado em pensamentos olhava para o relógio da estação. Sabia que seu ônibus dificilmente atrasava. Aguardava sem pressa. Observava o vai e vem das andorinhas e a placa de vende-se do lote na sua frente. Era um lote grande com uma árvore muito bonita. Olhou mais uma vez para o ponteiro do relógio e continuou em pensamentos. Bateu a mão no bolso para certificar-se de que sua passagem ainda estava ali. Ela estava. Depois abriu um drops de menta e colocou na boca. Gelou a garganta. Era do preto, uma menta forte. Ele abriu uma revista e folheou por entre as propagandas. Nada de importante, sempre as mesmas histórias. Ele passageiro a aguardar o ônibus, pensou: Quantas páginas atoa. Mas isso não era nada. Seu ônibus enfim chegou.

Mostrou se RG. Sentou e dormiu. O ônibus seguiu em frente, fazendo curvas até a rodovia principal. Aumentou a velocidade e seguiu. Estava frio por causa do ar condicionado. Acordava com a paisagem esvoaçante a passar em sua janela. Casas, capim, cana e uma ruela. Depois uma queimada e o céu azul. Sem nuvens. Abraçou sua mochila e cochilou novamente. Só foi acordado quando outro passageiro pediu para descer e depois disso não dormiu mais. Estava já quase chegando. Gostava de ir no primeiro banco para ir olhando a pista. Ela se estendia como um tapete negro. O último trevo e o balão. Enfim o seu destino. Agradeceu o motorista e se foi.

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Um caso com livros

Alguma coisa me atraiu naquela estante. Era para ser só mais uma pesquisa de 5a série e nos reuniamos na biblioteca municipal. O silêncio devia prevalecer, mas era tão bom soltar uma piada destas que não se aguenta ficar sem rir e dai escutar a bibliotecaria fazer: shhhiu! Mas o dever ali devia ser cumprido. Folhas de almaço nas mãos e a busca de um livro que falasse algo como o descobrimento do Brasil ou alguma passagem histórica importante. Não dava valor. Enquanto as meninas compiavam o trecho para nossa pesquisa na folha de almaço, pois elas tinham as letras mais bonitas, eu saia por entre as prateleiras silenciosas buscando algo mais do que o descobrimento do Brasil. Encontrava coisas estranhíssimas, como uma série de livros chamada: as ciências ocultas. Me atraiu também por serem bem ilustrados confesso, mas foi a ignição de minha leitura. Era uma ousadia ler sobre coisas tão esquisitas e novas. Era como o proibido conhecimento largado ali. Eu lia. Depois as buscas foram se tornando corriqueiras e as ilustrações já não importavam tanto mas o conteúdo. Aquele código de frases que se juntavam e dizia algo, era magnífico. Mas os meus interesses eram um pouco restrítos as histórias assustadoras. Peter blake, Sidney Sheldon, Stephen King. O livro “O exorcista” peguei emprestado certa vez. Depois de alguns capítulos me dava medo tê-lo na estante! Que ótimo escritor! E a coisa foi por aí, em pesquisas de engenharia sempre havia uma escapada para a busca de uma literatura. Dormir em cima de um livro parecia atrair sonhos incríveis. Livros encontrados e velhos chamavam muita atenção. Recomendações as vezes não faziam meu gosto, mas era sempre bom saber o que os outros liam. Até que certo dia eu fiquei viciado. Iria perder minha vida nessa história. Quantas tarde e fins de semanas trancafiado, lendo. Mas a questão era outra agora. Eu descobria que havia no mundo os sebos e lá livros, músicas, e muitas coisas antigas por preços melhores. Eu era um viciado em sebos. Passava horas correndo dedo por autores. Eram poucos os muito bons. Eu escolhia mais do que lia agora. Talvez ficasse mais exigente. O certo é que o sebo era meu bar, ou pub, um costume de ir lá bebericar autores e ler contracapas. Que estranho. Eu lia e dai também escrevia. Porque agora já não queria apenas ler, mas contar tudo o que se passava quando não lia, ou quando sonhava, ou quando imaginava, ou quando alguém sorria, ou uma lembrança, ou uma rima, uma viagem, uma agonia, um instante, uma flor, uma pintura. Tudo colocado em palavras de um jeito diferente, sera que eu conseguia. E ai um dia eu li: Cada pessoa interpreta um livro de uma maneira, então um mesmo livro são vários. Quantas bibliotecas. Não consigo parar de ler. E ai, alguma recomendação de leitura? Algum livro marcante? O caso com livros continua e acho que não tem volta.

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Encontrando um lugar no mundo

Depois de mais ou menos 10 anos eu voltei a sala de aula. Estava lá com todos meus amigos. A professora chegou e começou a aula. Na minha mochila havia um livro muito bonito que eu havia emprestado de alguém. Era um livro curioso, folhei  e havia cruzadinhas, figuras e coisas que não se encontra usualmente em um livro de literatura, queria lê-lo logo. Parecia também ser muito bem escrito. Eu queria contar isso a alguém e disse ao meu amigo da frente. Esse amigo nunca teve muito interesse por livros, mas este, em especifico, ele me pediu emprestado. Eu o entreguei e ele guardou. A professoara estava a falar. Eu ouvia-a com o pensamento no livro ou em algum outro lugar, ela falava coisas como que desmarcar as aulas da próxima semana. Eu tentei anotar mas não me lembrava que aula mesmo era aquela, não sabia o nome da matéria nem o da professora. Havia esquecido muitas coisas.

No meu caderno havia muitas anotações, uma tabela com as matérias e os horários. Fui perguntar ao meu amigo sobre qual aula seria desmarcada e percebi que ele havia estragado a capa do meu livro emprestado. Fiquei furioso pois este livro nem era meu e eu nunca faria isso, sempre tomava o maior cuidado com as coisas dos outros. Um pouco bravo, pedi o livro de volta. Ele me olhou torto e me chamou de apegado, devolveu o livro todo esbugalhado. Não dei a minima para isso, eu só pensava em como arrumar aquela capa.

Volto para a aula, mas meus pensamentos só pensam no livro e na capa toda estragada. Preciso saber quais aulas serão canceladas na próxima semana. Preciso arrumar essa capa. São as três aulas na sequência na segunda feira, ouço. Todo mundo pega seu material é o fim da aula. Planejo mentalmente como concertar a capa do livro. Saimos.

Vou em direção a rodoviaria pois já esta ficando tarde. Percebo que não há mais onibus para onde quero ir. Mas já nem sei para onde vou, pois onde eu estava planejando ir nem existia mais. Todos se foram.

Aquela cidade muito conhecida cheio de amigos, agora já a desconhecia completamente. Não tenho mais nenhum contato e nem um lugar para onde ir. Olho um cão de rua dormindo na porta de uma loja. A escuridão toma conta da noite. Bato a mão no bolso e cadê minha chave? Mais que chave mesmo eu tenho já que não moro aqui?

Eu precisava encontrar um lugar para ficar esta noite. O tempo ameaçava chuva. Saio com pressa, pensativo. Talvez um taxi para me levar daqui. É longe e estou sem um tostão.  Mas para onde é longe? Para onde eu vou?

Encontro um atalho para cortar caminho. Fica por entre os muros baixos que pulo facilmente. Eu conhecia bem aqui. Já cheguei a fazer isso uma vez ou várias, não me lembro. Que tal por ali? Pulo mais um murinho, atravesso varandas de apartamentos luxuosos, por entre vasos enormes me esquivo de plantas decorativas e chego no topo de um grande edifício.

Alguém na porta de vidro ali no topo se vira e me avista. Que faz ai? Me pergunta assustado assim como eu.  Penso em algo para dizer, mas nada me vem na cabeça. Toda essa história me vem na cabeça. A capa do livro. Aulas desmarcadas. Como começar a falar. O que dizer? Fico calado. Bato a mão no bolso e minha chave esta ali. Chave da onde? É a chave de casa? Casa!

 

Quando menos espero estou em casa. Não ali no prédio, no topo,  com alguém a me indagar, o que faz ai? Mas na cama, acordo onde sempre estive.

E agora, mais do que nunca, eu me levanto. Eu sei que preciso saber para onde ir.

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Por que escrever?

As vezes escrevia

para passar o tempo

outras para tentar melhorar algo

talvez na política

ou em mim mesmo

era só por gostar mesmo.

Ou por não ter outra escolha

Escrevia para você ler

escrevia por que sabia

que os sentidos se multiplicariam

e dos poucos leitores que tinha

amanhã eu já encontraria outro sentido.

escrevia e escrevia

em um blog ou papel de pão

papel de pão era melhor

porque escrevia comendo pão

e muitas vezes tomando coca-cola ou café

coca-cola com furo na tampa

onde se passava um canudo

dava um gosto melhor,

e também se tornaria um

bom assunto pra escrita.

 

 

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