Orquestra no quintal

Hoje chove lá fora

o mundo se organizou

para uma grande sinfonia

o vento se preparou

e equalizou o ambiente

os pássaros molhados

continuam assoviar

em cima do telhado

e as calhas respondem

deixando pingos tamborilar

em seus corpos de enlatados

folhas verdes fazem os graves

fazendo slides com pingos

a cair do céu cinzento

uma linda sinfonia

uma orquestra natural

no ritmo da calma

quase uma valsa

tocando inspirada

de corpo e alma

soltam notas e lindos arpegios

em diferentes oitavas

repicam o tempo

em sextavadas, é genial!

tudo isso eu ouço

aqui em meu quintal

 

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Muros

Eu sei que sou egoísta

Prefiro não ser ajudado

Eu gosto de ajudar

Mas gostaria que todos se virassem

Eu tento ser melhor, gosto de ficar quieto

Me incomoda te ver quieta

E não sei o que fazer

O mundo anda tão atropelado

Antes eu me sentava ao sol

e sorria nem importava porquê

Hoje já nem sei se o sol nasceu

Cada esforço pra te deixar feliz

parece em vão, porque eu não sei o caminho

Só sei dizer a verdade, eu não sei o caminho.

Seria melhor fingir saber?

Estou num emaranhado de morais

Uma montanha me dá saudade

Uma cidade me engole

Um rio deixo levar

E do mar provo um gole

Um gosto de sal

Quase fecho os olhos no sol

Você não sai da minha cabeça

mas sempre acha que eu te esqueço

Porque eu não sei falar te amo.

Mas é tudo que eu sempre sinto.

Todas as manhãs acordo arrependido.

De não te ter dito.

Mas eu queria que você visse.

Com seus próprios olhos.

Que igual você eu minto.

O silêncio de passageiros

em um pequeno recinto

puxo o cinto, mudo a rádio

engulo seco a solidão que estamos fadados.

Um pedaço rolando ladeira baixo

em uma grande escarpa íngreme

levanta voo, era só um outro salto

e vai se esfarfalhando e se desintegrando

no espaço.

O espaço entre nós.

Eu não digo eu te amo

E o que será que você não quis me dizer?

Não importa é assim mesmo o viver.

Repito ao vento é assim mesmo o viver.

Viva a vida. Só queria também isso fazer valer.

 

 

 

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Fonte da decisão

E agora já não sei o que faço

estou confuso com a história e fracassos

há uma grande indecisão entre escolher

por somente duas pequenas opções

 

É indecisão porque tudo tem seu lado ruim e bom

e convencer-se de um é dar as costas para toda solução

é aceitar o parcial em relação ao todo

meia verdade, esconder-se de novo.

 

Esse dia sempre chega e você não pode ficar ai

e quem disse que não?

 

A minha duvida é por saber tudo que não traz solução

é maior do que os que vivem na televisão.

talvez seja a dúvida de uma nação.

Já cansada em poder escolher entre opção.

 

Divago e olho. Paro e penso. Escuto e não falo.

A palavra esta trazendo muita confusão

Então é no silêncio de onde tiro minha conclusão.

E talvez seja essa minha maior recomendação.

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Livros e sabão

Se eu te mostrasse minhas mão agora

você não iria acreditar, olhando assim,

e vendo ela quase negra como graxa

que não estava em uma oficina mecânica

 

É um hobbie, que suja minhas mãos assim.

Não é pintar! Nem bicicletas apesar de adorar.

É outro entre tantos, é ler já posso contar

mas você, eu sei, pode não acreditar.

 

Vai pensar: e suja as mão assim!

Eu vou explicar. É o sebo que vou a garimpar.

Os livros ficam jogados entre paredes

de uma casa cheia de gatos a andar.

 

E esta minha fonte de livros é a solução

do mistério desta poesia e de minhas mãos!

Não é graxa, nem tinta e se tira fácil com sabão.

É apenas poeira sob livros aguardando sair da solidão.

 

 

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Brecha

Eu que tanto procurei  por uma vaga sem parar

o que me sobrou foi mesmo o verbo, restar.

parecia sina ou coisa que acontece sem se saber porque

então como deve de ser com todas as sinas,  eu vaguei sem vaga

 

Sou flexivel e propaguei minha desaceleração

percorri a calmaria, perambulando por aí

Dei um grande incentivo a inércia com meu sossego

Alonguei conversas dedicando-me ao lazer

 

Eu já estava de folga mas sempre buscava vaga

então deixei-me descontrair, pra ver a calmaria

sentir de perto a brandura e a delonga,

porque não apreciar isso um dia inteiro na vida?

 

Foi que fiz. Flutuei, saboreando o espalhamento

Então me difundi no mundo, dediquei-me a descontração sem delonga

dei mesmo uma grande oportunidade a pausa, empenhei-me na lentidão

Abri chance para o momento, ocupei-me do ócio,  e vivi.

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Pilha fraca

Hoje meu relógio parou

então fiquei a vagar no presente

coloquei a pilha esgotada de lado

e sem o som ‘tic e tac’ me entreguei a escrita

 

com o sumiço da sua marcação ele  se alongou

estreitou-se largamente em seus silenciosos passos

e eu aprofundei-me em sua ausência como numa rede,

´tum tum´do coração  substituiu seu compasso

 

Pela falta dele quase toda ciência foi pelo ralo

todos os encontros marcados logo se atrasaram

Só as flores não sentiram tal descaso,

e na primavera tiraram ainda nossos suspiros e abraços

 

O cão também se deitou ao primeiro raio de sol

e as aves também  pouco se deram conta do lapso

comprei outra pilha no supermercado para por fim nesse caso

mas já tinha me acostumado, então deixei ela de lado

 

 

 

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