Uma longa caminhada

Eu vi o vídeo no whatsup, era assim:  ela caminha por um corredor com muitos alunos de classe mais humilde a gritar. Ela tampa os ouvidos nunca gostou de ouvir gritos, eles gritam alto e isso incomoda pessoas de mais idade, é até engraçado de ver o seu jeito espontâneo caminhando com os dedos nos ouvidos (Era como uma pessoa chamada a receber o nobel tapar os ouvidos em meio aos aplausos, claro que até poderia ser o Nobel se fossemos mais justo com nossos professores).

Ela continua e passa pelo corredor de gente que continua a gritar e assoviar. Dessa vez eles não gritam para ir ao banheiro como dentro da sala de aula, mas gritam bem alto e aplaudem em seu nome.

Lá na frente no fim do corredor, ela para e encontra com sua irmã com um arranjo de orquídeas nas mãos. Seus alunos e os demais funcionários da escola continuam a gritar seu nome. Ela abraça e recebe da irmã, agora diretora de sua escola, as flores num gesto de imensa gratidão.

Dedicou a vida a educação, ganhando seu pão. Enfim saiu sua aposentadoria.

É emocionante, um pouco comovente, alegre, um pouco triste, uma contradição de emoções, talvez revolta, não isso não. Ela só não havia se aposentado antes porque não tinha carteira assinada quando trabalhava na roça. Colhia algodão já aos 14.

Eu conheço os verdadeiros heróis do Brasil pessoalmente e não pela TV.

Eu gostaria muito de ver um Brasil diferente.

Olhei para ela, agora já em casa me mostrando o vídeo no seu celular, e também dei um abraço forte, e disse muito obrigado.

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Coração cidadão

Na onde vivo ninguém se respeita

tá todo mundo procurando sua cereja

a saúde é igual educação; descaso

mil funcionários para um papel timbrado

 

Mas o papel veio amassado e não é aceito

então pego a fila para a senha do papel

e depois outra para o timbre e volto

para fila de conversar com os mil funcionários

 

nenhum sabe de nada,

e o 1 me manda para o 999

mas este diz que só o 1000 poderia resolver meu caso

mas ele esta de férias e pediu para eu tentar do outro lado

 

E passo, passo…dDaí chega o ano em que votamos

vamos nas urnas praticar nosso direito (singular não ao acaso)

talvez o único momento em que precisam realmente do povo

pois que fazemos mesmo é cumprir deveres e pagar por eles

 

Daí se discutem quem é melhor e o que é justo, qual a ética e tudo

ou, melhor, o que queremos para nosso futuro?

mas as esperanças estão rasas, são nada

talvez um pão duro

 

E se algum dia você passar por isso?

Precisar de saúde e ter que esperar com dor.

Quem pegou o nosso trem, e o nosso respeito

deixado na sarjeta, mas por quem? Por quem?

 

Se vira meu irmão, quem governa essa nação?

em um país em que não há educação

o estado só é mais um ladrão.

 

a beleza da palavra democracia

usada no dia a dia

mas a promessa

ainda jazia.

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O gênio e o sistema

O sistema é burro

e você deve segui-lo

senão está fora dele

está isolado do universo

 

Você perdeu se não segue

Ele tenta criar coisas que o tornam mais burro

Ele faz espertezas e massacra os gênios

O sistema faz os gênios morrerem

 

Se não for de tédio e é de loucura

que o sistema fadou os gênios

O sistema perde mais gênios do que imagina

O mundo do sistema sempre segregando bandos

 

Paciência gênios,

Não se calem por favor.

Gritem alto e digam

O sistema é nosso matadouro.

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Mundo demais, pouco muda

Milhões de pessoas. Desiguais. Ou niveladas ao absurdo do quase analfabetismo. Perdidas aguardando serem chamadas. Chamadas por todos os lados em filas e zum zum que não acaba.

“Antonio Zarcono Litero” grita alto e repete três vezes. Ele aparece depois de um tempo. E assim continua. “Maria Judesia Henisio”, três vezes bem alto e chega atrasada. Há outra chamada ocorrendo do outro lado do salão com nomes sendo gritados. E ainda há uma chamada de numeros ou senhas. Um caos de gente e zumbidos.

Espero mais de uma hora e me informam que não posso seguir porque algo quebrou. Mais uma fila para remarcar meu agendamento.Pego a senha 56. Um chamada de numeros. “50” e logo depois na sequência “60”.

“Você pulou do 50 para o 60!” reclamam o 51, 52, 53, 54, 55, 56, 57, 58 e 59.

Ele se nega “Eu chamei, repeti milhões de vezes, vocês que não me ouviram” mas logo vê muita gente a eclamar e diz “Vou dar um desconto dessa vez para vocês”. Paciência é o exercício, tristeza pelo atraso é a indignação.

Chega o 56. Vou. Digo que gostaria de remarcar. “O equipamento quebrou”. Eu sei e para quando posso remarcar? “Não tenho previsão” E nunca quebrou outras vezes, quanto tempo em torno levou, não tem uma sugestão? “Não dá para saber, depende da empresa que vai consertar, o senhor teria que ficar vindo aqui conferir todos os dias”. Pois marque para semana que vem, ouvi outro paciente reclamando e dizer que estará funcionando. “Posso marcar mas não é garantido. Vou dizer a real para o senhor, o equipamento esta bom, mas não pagaram o senhor que faz os laudos”.

Pego a senha da próxima semana e me entristeço muito, não pelo mal funcionamento de tudo, mas por onde chegamos e caminhamos.

Onde vamos parar? Na próxima semana estarei de volta mas isso não muda?

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Qual o Brasil que você deseja?

Uma média em estatistica sempre tende para um valor razoavel  muito parecido ao valor que mais se repete no conjunto de amostras estudados.

Será o nosso desejo para nosso país:  a injustiça, a corrupção, a desigualdade, a intolerancia, o caos?

Ou será que gostariamos de um Brasil justo, igual, solidario, pensante, forte.

A resposta é clara e quase não precisa de alarde em questionamentos, a maioria pensa assim, então porque não unirmos?

Discutir quem está lá e quem é melhor ou pior já foi,  o foco é fazer valer a média que a maioria quer.

O desejo da maioria é que faz a média. E a média é o valor que devemos seguir. A média é a força das idéias comuns. É o bom senso sendo ouvido.

São poucos que pensam o contrario, e as vezes esses é que tentam dizer que fazem a média.

A maioria é que faz a média e não tenho duvidas que o valor dessa média é o Brasil que merecemos e queremos.

Engaje politicamente e vamos construir o NOSSO país.

 

 

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Algum dia

Ela chegou em casa e já disse, vou sair. Ele respondeu tudo bem e tchau. Ela saiu e ele ficou. O sol entrava pela janela, estava um tempo seco clamando por água a tempos. Sua garganta respondia as condições de temperatura e umidade com um leve incomodo. Mas ele estava mesmo incomodado era por outros motivos. Não trabalhava já fazia quase um ano e não havia nenhum sinal de melhoras. Não era tão ruim assim, seu currículo possuia uma extensa carreira e experiências incríveis. Ele ficava a imaginar outras pessoas que não tinham nem se quer estudo. As condições do país iam de mal a pior, bom pelo menos era isso que se constatava todos os dias nos jornais. Era dificil crer que um país desse tamanho e com tanta riqueza, a mesquinharia pelo poder era um entrave ao desenvolvimento. Ele queria esquecer tudo isso para não piorar as coisas, tentar pensar positivo ou em alguma saída. Tinha muitas idéias novas, mas dariam elas certo? Tinha muitas duvidas também. Uma instabilidade avassaladora não ajudava colocar em pratica nenhuma de suas ideias, pensou. O relógio sempre a trabalhar na cozinha repetia seu tic seguido do tac em compassos precisos. Lá fora pombas e bem-te-vis voavam livres cantando canções de primavera. Ele já tinha passado por essa experiência várias vezes e sabia que isso era normal e as coisas são assim mesmo com altos e baixos. Quanto mais nas alturas mais próximo da queda e quando mais no buraco mais chances de subir igual um foguete. A vida uma corda bamba. Paciência. O pensar influi no mundo de uma maneira avassaladora pensava ele. São ondas que abrangem todo o espaço e percorre o infinito, por isso apesar de toda crise pensava positivamente. Claro que os dias também vinham em cores negras e frias, mas reluziam as vezes em cores quentes e claras. Os opostos e um só. Tudo a mesma coisa. Contradições do mesmo mundo. Respirou fundo e foi buscar um café, estava tomando mais desde que ficava em casa. Abriu a garrafa vermelha e derramou um gole pequeno na chicara. Tomou de uma só vez. Estava um pouco frio, mas um café sempre era bem-vindo. A folha do calendario balançava ao vento, ventos de dias melhores talvez. Já era setembro! O ano voava, os dias passavam como horas e o ano como mês. Gostaria de ter feito algo para mudar as coisas ruins no mundo, pensava. Seu egoísmo era tanto que voltou-se ao seu computador e colocou mais uma notícia sobre política.

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Encontrando um lugar no mundo

Depois de mais ou menos 10 anos eu voltei a sala de aula. Estava lá com todos meus amigos. A professora chegou e começou a aula. Na minha mochila havia um livro muito bonito que eu havia emprestado de alguém. Era um livro curioso, folhei  e havia cruzadinhas, figuras e coisas que não se encontra usualmente em um livro de literatura, queria lê-lo logo. Parecia também ser muito bem escrito. Eu queria contar isso a alguém e disse ao meu amigo da frente. Esse amigo nunca teve muito interesse por livros, mas este, em especifico, ele me pediu emprestado. Eu o entreguei e ele guardou. A professoara estava a falar. Eu ouvia-a com o pensamento no livro ou em algum outro lugar, ela falava coisas como que desmarcar as aulas da próxima semana. Eu tentei anotar mas não me lembrava que aula mesmo era aquela, não sabia o nome da matéria nem o da professora. Havia esquecido muitas coisas.

No meu caderno havia muitas anotações, uma tabela com as matérias e os horários. Fui perguntar ao meu amigo sobre qual aula seria desmarcada e percebi que ele havia estragado a capa do meu livro emprestado. Fiquei furioso pois este livro nem era meu e eu nunca faria isso, sempre tomava o maior cuidado com as coisas dos outros. Um pouco bravo, pedi o livro de volta. Ele me olhou torto e me chamou de apegado, devolveu o livro todo esbugalhado. Não dei a minima para isso, eu só pensava em como arrumar aquela capa.

Volto para a aula, mas meus pensamentos só pensam no livro e na capa toda estragada. Preciso saber quais aulas serão canceladas na próxima semana. Preciso arrumar essa capa. São as três aulas na sequência na segunda feira, ouço. Todo mundo pega seu material é o fim da aula. Planejo mentalmente como concertar a capa do livro. Saimos.

Vou em direção a rodoviaria pois já esta ficando tarde. Percebo que não há mais onibus para onde quero ir. Mas já nem sei para onde vou, pois onde eu estava planejando ir nem existia mais. Todos se foram.

Aquela cidade muito conhecida cheio de amigos, agora já a desconhecia completamente. Não tenho mais nenhum contato e nem um lugar para onde ir. Olho um cão de rua dormindo na porta de uma loja. A escuridão toma conta da noite. Bato a mão no bolso e cadê minha chave? Mais que chave mesmo eu tenho já que não moro aqui?

Eu precisava encontrar um lugar para ficar esta noite. O tempo ameaçava chuva. Saio com pressa, pensativo. Talvez um taxi para me levar daqui. É longe e estou sem um tostão.  Mas para onde é longe? Para onde eu vou?

Encontro um atalho para cortar caminho. Fica por entre os muros baixos que pulo facilmente. Eu conhecia bem aqui. Já cheguei a fazer isso uma vez ou várias, não me lembro. Que tal por ali? Pulo mais um murinho, atravesso varandas de apartamentos luxuosos, por entre vasos enormes me esquivo de plantas decorativas e chego no topo de um grande edifício.

Alguém na porta de vidro ali no topo se vira e me avista. Que faz ai? Me pergunta assustado assim como eu.  Penso em algo para dizer, mas nada me vem na cabeça. Toda essa história me vem na cabeça. A capa do livro. Aulas desmarcadas. Como começar a falar. O que dizer? Fico calado. Bato a mão no bolso e minha chave esta ali. Chave da onde? É a chave de casa? Casa!

 

Quando menos espero estou em casa. Não ali no prédio, no topo,  com alguém a me indagar, o que faz ai? Mas na cama, acordo onde sempre estive.

E agora, mais do que nunca, eu me levanto. Eu sei que preciso saber para onde ir.

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Moral da história

Que moral temos onde nossos líderes são os mais corruptos

Onde ter a vantagem sobre os outros é medalha de honra

onde a cultura e educação são números em estatísticas de cadernos com bonitos design

Onde financiamentos enormes são gastos em algum projeto qualquer sem planejamento suficientes.

Onde temos de fazer rápido porque o devagar e com qualidade pouco importa.

O que importa é lavar, quem me dera se fosse a alma, o que importa é lavar dinheiro.

Essa nação é o fracasso. Mas ainda resta a famosa frase que não desistimos nunca.

Talvez e quem sabe essa seja a única esperança e moral da história.

 

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